Esses dias li uma matéria sobre o famoso chef Pierre Schaeledin (ex Le Cirque - NYC) que agora cozinha para a dondoca, milhionária, guru de cama mesa e banho, pop star e criminosa Martha Stewart. Parece que tudo começou quando ela foi presa. A comida na prisão de Alderton, West Virginia, não era lá muito boa, e assim que Martha se viu livre (mas vivendo reclusão domiciliar), contratou o Pierre para cozinhar, exclusivamente para ela (e posteriormente para seus televidentes), pratos no mínimo... apropriados. A história da prisão não só deixou ela mais rica como deixou Schaeledin mais famoso e mais feliz. Ele diz que agora se sente um cozinheiro, assa o próprio pão (e o de Martha) e até aprendeu a fazer cookies. Uma mão lavou a outra.
O motivo da prisão de Martha é super estranho. Mentiu ao ser interrogada sobre uma suspeita transação na bolsa envolvendo ações de uma empresa de biotecnologia chama ImClone. Será que ela está envolvida em clonagens? No mínimo, em mutretas no mercado financeiro. Já o Pierre só saiu do Le Cirque porque este fechou temporariamente (depois voltou como Chef Executivo, cargo de chefia quase administrativo, zero mão na massa). Conclusão, o emprego com a Martha caiu do céu. Ser chef de restaurante badalado cansa (digo sem experiência própria). Mas o Pierre parece legal, menino do interior (da França), origem simples. Ama azeite de oliva, alimentos crus e embutidos caseiros. E diz que a Martha sabe receber como ninguém.

(politicalhumour.about.com)
Então descobri que "receber" em inglês é entertain, ou seja, entreter. Em espanhol usaria agasajar, que lembra "agasalhar". Tornar aconchegante. Essa coisa de receber é interessante. Tem lugares onde a arquitetura não permite, de tão antipática. Como os restaurantes de decoração fria (acho que hoje inaugura mais um no Itaim), ou as cozinhas pensadas como algo separado do resto da casa.
Tem gente que nasceu pra receber e gente que não gosta. Gente que fica num alto nível de stress, obcecada com detalhes, que não admite erro nem improvisa e gente que não lembra nem de oferecer água a quem chega da rua num dia quente. Tem até gente que depende de receitas, fórmulas e formalidades e encara o receber como uma missão da qual depende seu status. Tem gente que vai no terreiro para receber. Tem gente que vai no banco. Em todo caso, receber dá trabalho. Sabe aquela cena do aniversariante correndo pra lá e pra cá para limpar a mesa, recolher copos, repôr salgadinhos e esvaziar cinzeiros enquanto os convidados riem alto com um pé no chão e outro na parede da sala? Eu vi isso acontecer na casa de uma poeta semana passada.
Dá trabalho mesmo, e dá prazer. Pelo menos eu gosto... Uma mesa bonita, uma cozinha fumegante e cheirosa, aquela primeira garrafa de vinho que tomamos enquanto cozinhamos. A música, as risadas, a campainha que quando começa a tocar não para mais. A aprovação dos comensais, essencial. Sem falar na presença infalível do Monstro da Pia. Porque apesar de eu ser metódica e lavar toda a louça suja existente antes e depois de cozinhar, sempre, invariavelmente, a jornada termina com uma pilha enorme de pratos, copos, taças, e, arghhh, panelas. Para minha sorte, quem cozinha não lava.
Domingo passado recebi. Fiz um peixe assado com ervas e cogumelos paris. Não tenho fotos, infelizmente, acabou rápido demais. Para acompanhar o peixe, gomos gigantes de abóbora hokaido com casca, levemente cozidos e depois confitados/assados, batizados de "costela de brontossauro". Purê de cará para trazer aquela suavidade branca e nutritiva. Não sobrou nada, e olha que tinha muito. Fiquei exatas 4 horas e meia na cozinha produzindo o almoço para 9 pessoas. No final estava exausta mas feliz, me sentindo leve. É recebendo que se recebe.
E não deu outra: dois dias depois fui recebida num almoço/reunião de trabalho na casa de um amigo. Apesar de eu saber que ele é muito cuidadoso e sensível, imaginei que seria algo bem simples, improvisado, aquela praticidade típicamente masculina que muitas vezes inclui pomarola. Claro que com ele eu tinha esperanças, sabendo da pessoa que ele é. E pensando em colaborar levei salada pré-lavada (confesso que sou consumidora disso, um dia explico), suco de uva orgânico e cerejas para a sobremesa. Eu estava com bastante fome. O cardápio foi: linguini ao molho de salmão (argetino, defumado) e alho porró, com salada verde e cerejas chilenas (?) do sinal vermelho da Rebouças. Vinho tinto cabernet-sauvingon Terrazas (poderia ter sido um vinho mais leve, mas caiu super bem). Tudo numa mesinha quadrada de madeira, com duas pequenas velas acesas, uma linda toalha, taças de cristal. Muito gostoso o prato e muito caprichoso o jeito dele me receber.
Quando me recebem com uma comida gostosa e feita com amor e cuidado, a fantasia de que sou especial fica quase real.