domingo, 22 de maio de 2011

Cuidado


Suco da mamãe


O corpo sabe o que quer, mas às vezes quer aquilo que é o hábito, ou aquilo que dizem que ele deve querer. Por exemplo, durante muito tempo meu corpo achava que queria uma média e um pão na chapa para abrir os trabalhos. Nada contra, sem moralismo: uma média quentinha com aquela espuma de leite, feita com um bom café e um pão francês fresco, bom, prensadinho sem queimar, adoro. Mas é isso que o meu corpo quer quando acorda? E o que eu sentia depois? Um certo peso, bastante sede, e nada de fome por horas.

Nunca fui trash, mas vivia esses equívocos ou automatismos. Correr pra padaria toda manhã (a Leticia ao lado não ajudava). Como me disseram uma vez, assim eu delegava o cuidado sistematicamente, um cuidado que deveria começar em casa, partindo de mim. E a um preço alto. Uma padaria vez ou outra, com um jornal do dia é muito bom, mas todo dia? Já fez as contas?

A gravidez exagerou em mim a vontade que eu já tinha de me cuidar. Hoje abro os trabalhos com um suco feito de beterraba, cenoura, couve, escarola, salsão, maça ou pêra. É muito gostoso, mesmo. E quando eu tomo sinto as células do corpo agradecendo, sinto uma vitalidade, uma leveza, uma prontidão pro que quer que seja. E só meia hora depois é que como algo sólido. Poderia até ser uma média e um pão na chapa. Mas é qualquer suporte sem glútem (bolacha de arroz, pão de mandioca) com um queijinho de cabra ou abacate, ovinho mexido, uma fruta. Leveza, e fome daqui a pouco.



Almocinho


Não vou fazer aqui um manifesto natureba eco chato. Mas substituir tudo que você come por orgânicos não é tão difícil nem caro como se pensa. Aliás, esse discurso de "ah, mas é muito mais caro" é totalmente falho. Existem vários fornecedores que entregam verduras orgânicas em casa e se você comparar, é o preço que pagaria no supermercado pelos tradicionais envenenados. Fruta é mais complicado, mas toda a salada e os leguminhos de cada dia podem ser da melhor qualidade, e a diferença se vê no prato e no sabor.

E assim tenho passado, comendo exclusivamente em casa e transformando cada refeição num acontecimento cheio de alegria. No prato acima, arroz integral, tabule de quinua colorida, shiitake grelhado e nabo ralado. Muito simples, muito sabor. Às noites, canja de galinha, sopa de legumes, repetecos e afins.

Sim, de vez em quando a saudade, de uma pizza, um bom hamburguer, mesmo uma média e um pão na chapa, tudo isso será bem vindo e consumido como uma iguaria excepcional, com bons ingredientes, bem feito e sem culpa. A exceção, não mais a regra. Em pouco tempo esse cuidado mehora a nossa vida. Instantaneamente, diria.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Déjà Vu

Aposto que isso não acontece só comigo. Toda vez que viajo, especialmente em outros países, encontro clones dos meus amigos por ai. É como se os padrões da natureza tivessem um número limitado de combinações e se repetissem. Bom, sei que isso acontece mesmo, basta olhar para orquídeas e mexilhões. Mas não se limita às fisionomias, é também um jeito de andar, um corte de cabelo, uma calça, o tom de uma risada. Na minha última viagem para NY vi vários amigos por ai: a Tata andando de costas com seu violão, o Dudu numa palestra com sua calça roxa, a Janice no aeroporto esperando um voo atrasado concentradíssima no seu lap-top e a Cecilia fazendo compras na Quinta Avenida. Mas o cúmulo mesmo foi há muitos anos em Bariloche, quando vi eu mesma, passando num taxi, com meu cachecol azul e um certo ar melancólico.

Nessa mesma viagem recente, outro déjà vu, o clone de um sabor. Foi na Katz Deli, uma lanchonete judaica bem tradicional (existe desde 1888!) que fica no East Village. Fui parar lá com a ajuda do meu guia Gallimard (Publifolha), que amo, porque me leva a ótimos restaurantes a bom preço, e ainda separados por bairro. Assim fui ao ótimo (um pouco pesado) indiano Pongal e ao incrível Joe' Shangai em China Town, numa noite tenebrosa de frio em que tudo parecia fechado e enormes pilhas de lixo se acumulavam nas ruas, quase tirando minha fome. Também teve os maravilhosos omeletes da Sarabeth (numa viagem anterior) e a excelente tratoria Max Soha perto da Columbia University (inesquecível fusilli caseiro com ragu de cogumelos ao vinho Brunello, prato que infelizmente não pedi mas belisquei graças à generosidade alheia).



Latkes, cream soda, pickles, hot dog, sanduíche de bastrame, batata frita e knishes.


Mas voltando à Katz Deli. Pedi sopa de matzo balls e knishe (uma bola de purê de batata doce, muito boa). Meus amigos comeram hot-dog (ótimo, com repolho agridoce e pão torradinho), latkes de batata com sour cream e molho de maçã e sanduíche de pastrami caseiro (o clássico da casa, obsceno na quantidade de carne), e todos dividimos ótimas batatas fritas de formato grosseiro. Mas foi ao morder o sanduíche de pastrami que tive o déjà vu. Não foi aquela sensação de comer algo conhecido, mas um sabor que me remeteu a uma lembrança remota, inalcançável e que talvez pertencesse a outra pessoa ou a outro tempo. De fato, o sanduíche estava muito bom. Pão de centeio, muito macio e leve, e a carne, longe de parecer um embutido, desmanchava e tinha um tempero especial, de bordas escuras. Fiquei o resto do dia tentando localizar essa lembrança sem sucesso, até escovar os dentes e esquecer.



Sarmiento y Uriburu.


Então lembrei, no tédio do avião voltando pra casa. Foi em 1985, na Calle Sarmiento em Buenos Aires. Eu morava do lado da escola (porta com porta) e em frente ao clube Hebraica, que todos os meus amigos frequentavam e eu também passei a frequentar, mas de penetra. Um belo dia me fingi de sócia e entrei, ninguém me barrou. E assim fui usando o clube durante um ano sem nunca ninguém perceber e sem jamais contar pro meu pai. Fiz aula de informática, nadei na piscina, joguei basquete e fiz travessuras no terraço do ultimo andar de onde se via a janela do meu apartamento. Tinha dez anos, fiz isso pela aventura, na inocência e com a cumplicidade dos meus amigos sócios, hoje não teria coragem. Foi nessa época, na lanchonete ao lado do clube onde comia com meu pai o maravilhoso pletzalej com pastrami e pepino, acompanhado de refrigerante Mirinda sabor laranja. Foi esse sabor, o mesmo, a mesma sensação, o cheiro e a textura. Não mais um déjà vu: uma lembrança esquecida durante 25 anos.


sábado, 19 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Pesto

 Foto: Galeria Experiência


Lembro muito bem da minha mãe picando manjericão com aquela faca grande, pesada, retangular. Lembro do rítmo da faca na tábua. Eu ajudava abrindo nozes. Adorava quebrar nozes, martelar sem dó ou espremer no canto da porta.

Minha mãe me ensinou algumas coisas na cozinha. Primeiro, que não existe não saber cozinhar. E o mais importante, com qualquer coisa se faz uma comida boa. Desde que se tenha amor, pelas pessoas e pela cozinha. Intimidade também. A prova disso era a polenta feita com água e caldo knorr, regada de óleo de milho, e nos dias bons do mês com queijo parmesão. Uma delícia. Um dia só tinha farinha e um tomate. Ela fez um pão de frigideira recheado que comemos com mate no quintal embaixo da parreira.

Voltando ao pesto e a se virar com o que a gente tem. Desta vez, com amigos na serra da mantiqueira, tinha manjericão, mas pouco. Completei com salsinha. Não tinha nozes, usei castanha do pará. Coloquei também na mistura um tomate inteiro (sem casca e sem sementes), parmesão, sal, pimenta, muito azeite. A quantidade de azeite chamou a atenção de todos, - que exagero!. Mas não sobrou uma gota.

E na hora de servir, a frase da minha mãe que neutraliza qualquer falsa modéstia: - Lástima que no sé cocinar! (que pena que eu não sei cozinhar).


MK verão de 2011

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ser turista

Miradouro de Santa Luzia.


Ser turista é desfrutar e padecer. Sou dessas pessoas que rejeitam o rótulo e por isso mesmo, sempre vinculam as viagens a algum tipo de trabalho, entre outras coisas, numa tentativa de inserção na realidade local de forma mais profunda ou mais coerente com o que gostamos de ver e projetar sobre nós mesmos. Sinceramente, as nossas cameras fotográficas e mapas não tem qualquer coisa de patéticos?

Contudo, o ser turista é também gostoso, descompromissado e inevitável, bem como os erros que decorrem. De logística: aquela estação de metrô é mais longe. Roubadas: o hotel não é o que parecia. Financeiro: ali do lado era muito mais barato. E por ai vai.

Mas tem atrações turísticas que são clássicos não por acaso. Como os Pastéis de Belém em Lisboa. Defendo a teoria de que boa parte de seu maravilhoso sabor vem do fato de serem feitos na hora e servidos quentes. Mas não é só isso. Há um componente secreto, os portugueses adoram essas mitologias e nós também. Seja como for, a gente chega lá, pega fila junto a muitos turistas como nós. Espera por uma mesa, recebe a pior mesa (do lado do banheiro) que não pode trocar mesmo havendo outras disponíveis. É maltratado por 3 garçons diferentes, o café vem aguado e frio num salão com ambiente familiar e novos velhos móveis. Tudo com aquela cara de vida de turista. Mas só até que eles chegam, os pastéis.

Eles iluminam a sala e perfumam o ambiente. Ao mordê-los, poeira finíssima de canela entra no nariz, seguida de suavidade cremosa láctea, finalizando a mordida com delicada crocância de mil finas folhas e no fim, tudo misturado na boca, que não quer que isso acabe jamais.





MK, de Lisboa

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Vinhos da Mulherada

 Fotos da Marie



Tenho como premissa nunca recusar convites da Marie. Ela é muito amiga, muito querida e arruma uns programas inusitados para mim, como as exposições maravilhosas que ajuda a organizar (Cartier-Bresson, Lorca, ... coisas grandes e lindas), suas próprias exposições (como a recente Preto e Branco), fotografar um piloto de Fórmula1 numa churrascaria, comer comida peruana (uma grande paixão sua), tomar banho de mar em Ubatuba ou simplesmente bebericar um chá interessante de sua coleção pessoal. Mas a vida corre e o tempo é uma abstração e por conta disso tenho estado em falta com ela e com minha própria vontade de ir onde quer que ela queira me levar.



Filipa Pato em ação



Mas ontem consegui, e fui numa degustação de vinhos organizada pela Casa Flora (importadora), só para mulheres e com a presença de três grandes enólogas ibéricas: Filipa Pato (Portugal) e Ana López Lindon e Rosália Molino (Espanha). As moças ficaram atrás de grandes mesas com seus produtos, explicando de bom grado os detalhes de seus vinhos. A Filipa Pato (que arrasou no vinho branco), simpatica e discretamente elegante, me lembrou muito a Manuela, cantora da banda portuguesa OsClã. Seu vinho branco estava delicioso, muito suave, deu vontade de estar perto do mar. A Rosália Molina (de vestido florido de verão e brilhantes olhos claros) produz um tinto orgânico maravilhoso, com um aroma meio defumado, muito leve. Ela parecia um pouco cansada, mas sorria bastante e a mesa dela ficou cheia a noite toda. A Ana López Lindon produz um cava muito festejado pelos críticos. Foi a primeira coisa que provei, e gostei, mas não sou uma grande apreciadora dos espumantes e ainda por cima estava faminta. Mas tudo que ela produz é orgânico e as garrafas tinham o design mais arrojado, compridas, com vontade de virar castiçal.



 Filipa Pato, Thais Carvalhal, Rosalia Molina e Ana Lopez* 



As comidinhas eram muito boas. Croquete de pupunha, tartar de salmão com "pérolas de tapioca" (sagu! ótimo!), trouxinhas de cogumelos (um pouco sequinhas por dentro), mini-kibes com molho de limão, vatapá de lagosta e um nhoque muito gostoso que estava um pouquinho frio (não há massa que resista a uma noite geladinha, quase ao ar livre). A presença me pareceu basicamente de jornalistas e restauranteurs. Conversa animada, ti ti ti feminino, risadas. E com a gente não foi diferente (um grupo composto por mim, uma light designer, uma artista visual e uma produtora da Mostra de Cinema). A gente riu, riu, riu e saiu levemente cambaleante.



A gente realmente entende do assunto*



Um encontro gostoso, uma oportunidade de conhecer novos vinhos e de ver como a mulher vai ocupando espaços tradicionalmente masculinos. O mundo muda, às vezes mais rápido ou mais devagar, mas muda. Agora, sobre o aspecto puramente feminino da noite, essas coisas me fazem entender por que Deus criou dois sexos. Os garçons, bonitos e simpáticos: um oásis. Nos eventos puramente masculinos deve ser assim também. Mas nesses eu não vou, né?


*fotos de Marie Hippenmeyer

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Café da manhã com amor

Já não me restam dúvidas sobre a diferença que faz na vida, e na cozinha que a vida é, quando as coisas são feitas com amor. Aquela energia criativa que também ganha o nome de capricho, esmero, cuidado, dedicação. No fundo é amor, alegria de estar vivo podendo fazer aquilo.  Pois o tal amor leva para segundo plano a dita sofisticação, elegância, elaboração, complexidade e demais floreios culinários. Nada disso importa, um pãozinho com manteiga com amor acaba com a assepsia de qualquer boulangerie chique.

Durante uns dias sonhados na Chapada dos Veadeiros, provei o café da manhã com amor da Lourdes. Goiana falante de sorriso fácil e mão boa para tudo na cozinha, do bolo de milho cremoso à galinhada, me ofereceu seu amor em forma de:




Pão doce, pão caseiro de cenoura, bolo de milho, pão francês, ovo caipira mexido, frios, fruta, iogurte caseiro, pão de queijo quentinho, granola, mel de laranjeira, tapioca crocante. A cada dia uma pequena e surpreendente alteração, a cada dia um novo suco fresquinho (acerola, goiaba, maracujá). Tudo isso, servido no pequeno terracinho do chalé, no horário em que a intuição sempre acertada da Lourdes acha que vamos querer sair da toca.

Sabe quando você acorda já feliz porque vai ter aquele café da manhã? Acordei assim todo dia, e foi com esa nutrição que fui para as trilhas e cachoeiras do cerrado, sob um sol maravilhoso de inverno, durando os efeitos alimentícios até o sol baixar e a gente terminar o dia como lagartos na pedra comendo um lanche preparado com os restos do farto café.

Nenhuma experiência gastronômica na chapada (nem mesmo os clássicos da Vila de São Jorge, quase sempre comida de buffet servida ao mesmo tempo fria e requentada) se comparou ao café da Lourdes na pousada Toá Rosa, que apartir de julho vai oferecer jantar, também servido no terraço. Vou ter que voltar.


Bolo de Milho da Lourdes muito simples e minhas adaptações*

(Usar a própria lata do milho para as medidas)

1 lata de milho (usei o Bonduelle e da próxima vou usar milho de verdade)
1/2 lata de fuba instantâneo (usei a clássica Milharina)
1/3 de lata de óleo (ela usa soja, eu usei canola)
1 lata de leite
1 lata de açúcar (usei 3/4)
3 ovos caipiras (tem que ser caipiras)
1 colher de sopa de pó Royal
1/2 lata queijo (usei minas padrão ralado, ela usou meia-cura)

Bater tudo no liquidificador e assar numa forma com um pouquinho de óleo até dourar.

*minhas adaptações não adiantaram, o dela estava mais gostoso (mas a receita é infalível).



MK, com saudades do cerrado, 1 de julho de 2010.