domingo, 30 de dezembro de 2007

Salutem Per Acqua

Passando pela ponte semi-destruida


Aqui onde estou (região dos lagos, Patagonia norte) tem de tudo, são muitos os atrativos. E alguns deles se devem à intensa atividade vulcânica que acontece por aqui. Confesso que isso me dá um pouco de medo. Afinal, nunca se sabe quando os vulcões vão acordar. Claro, eles avisam antes, há indícios. Mas... e se o vulcão resolver cuspir lava de uma hora pra outra, sem aviso prévio, bem na hora em que estou em cima dele tirando fotos? Bobagem, não é? Mas as pessoas em Pompéia confiaram e lá estão, em forma de estatua no meio do que estavam fazendo.

Medo superado, resolvi correr o risco e aproveitar as vantagens. Sempre quis tomar banho em águas termais! Acho sensacional essa coisa da água quente brotando da pedra, um milagre. Por isso resolvi fazer uma extravagância e visitar o Spa Termal de Montanha Lahuen-Co, muito perto da fronteira com o Chile. Um pré-presente de aniversário.





A estrada é linda! A gente passa por lagos e mais lagos, de águas claras e praias de areia branca. Dá até para fingir, fotográficamente falando, que se está no Caribe, não fosse o vento polar e a temperatura da água (menos fria do que lembrava). Foram duas horas e meia de curvas, subidas, descidas, arco-iris, lagos, vales, pedras gigantes, picos nevados, flores (brancas, amarelas, violáceas) e bichos. É incrivel como as vacas aqui são gordas, os cavalos grandes e todos os quadrúpedes (cachorros incluidos) tem pêlo lustroso e bonito.


Carro de buey


Antes de chegar às Termas, a coisa ficou preta, literalmente. A estrada de terra agora tinha côr de cinza, e pequenas rochas de lava solidificada se acumulavam em suas laterais. Dos dois lados, um pouco mais longe, a exuberante floresta valdiviana. Paisagem muito peculiar. O lugar em si, o Spa, é bem bonito, uma construção de madeira, pedra e vidro, em frente a um bosque.


Modalidade: Yoga-na-lava


Fui muito bem recebida com chá de ervas e bolinho e convidada a aproveitar os banhos. Ganhei uma toalha, um ropão e um chinelinho estranho, meio de plástico. No setor de banhos, três mini piscinas com temperaturas de 37,5 a 41 graus, muito relaxantes. Quinze minutos de imersão e mais quinze descansando e lendo meu novo livro do Philip Roth. Ainda provei a ducha vichy, que consiste em 5 jatos de agua termal bem quente caindo em locais do seu corpo a escolher. Acho que gostei disso, mas não sei. Duas horas depois da chegada, o merecido e aguardado almoço, que eles descreveram como "patagônico gourmet".



Sala de banhos



O cardapio parecia interessante. De entrada pedi vichyssoise, uma sopa de alho porró, batata e creme de leite que meu pai fazia pra mim quando eu era criança. Desta vez na versão quente. Estava boa! O pão meio durinho e nada para espalhar nele. Comecei a desconfiar. As opções para o prato principal: truta, ojo de bife, wok de legumes ou papardelle mediterrâneo. Quis a truta, mas não foi possivel. Tudo tinha acabado, menos o wok de legumes. Fazer o que? O wok estava bonito na apresentação e correto no sabor, mas meio sem graça. O atendimento um pouco disperso, o azeite de oliva não chegava, não chegava... O vinho rosê não chegava, não chegava.


Primeiro prato: Vichyssoise



As sobremesas boas também acabaram. Sobrou uma unidade de algo de nome francês impronunciável, traduzida como vulcão de chocolate. Era um petit gateaux bom, mas feito no microondas (ouvi o apito quando ficou pronto). Tenho preconceito automático com tudo que é feito nessa maquina maléfica, mas comi mesmo assim porque não sou tão radical. No final, pedi um chá de boldo e fiquei lendo num sofazinho enquanto aguardava o horario da aula de yoga. Depois de tanta comida era tudo que eu precisava para concretizar meu projeto "gordura sustentável".


Segundo prato: Wok de legumes, bonito mas sem graça



Mas a aula de yoga não chegava, não chegava (ainda bem que fiz yoga-na-lava). A professora foi fazer massagem numa senhora e nunca mais voltou. Ainda por cima ficou de má vontade quando soube que iriamos querer a aula que o pacote "day spa" incluia. Não fui com a cara dela, apesar de ter simpatia espontânea por grávidas. Ela não sorria de jeito nenhum. Bom, como não dava para passear pelo complexo termal, já que chovia o tempo inteiro, voltei pros banhos, mas estava cheio de gente e não tinha onde sentar. Resolvi ir embora, curtir essa linda estrada de volta e aproveitar o fim de tarde em San Martin.

...

Chegando na minha cabana, resolvi não sair para jantar. Comer fora o tempo todo enjoa. Então fiz um lanchinho... torrada integral com presunto crú e queijo de ovelha, salada de alface americana e tomate (aqui o tomate é uma coisa), batata doce cozida (menos doce que a brasileira), cervejinha Stella Artois, tudo de bom, tudo silencioso.

Acho que o banho em água termal altamente mineralizada me fez muito bem. A minha pele ficou macia, os músculos relaxados, me deu um soninho bom... Mas o mérito é todo do vulcão, ou de Deus. Esse pessoal do Spa precisa aprender algumas coisas sobre como oferecer um bom serviço, ou melhor como simplesmente dar às pessoas aquilo que oferecem (por um preço nada modesto).

Epílogo: Reclamei por email com o povo do SPA, que se desculpou sinceramente e me convidou a passar mais um dia por lá, cortesia. Agradeci mas não vou, quero tentar um rafting no rio Hua-Hum.


MK

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Eu era feliz, e sabia.

Desembarquei em San Carlos de Bariloche na hora do almoço, como é de se esperar. Não comi a media luna servida no avião para não "estragar" minha fome. No aeroporto peguei um carro e enquanto mergulhava nos mistérios do câmbio automático, me perguntava como seria minha primeira refeição patagônica. Por indicação do cara que nos entregou o carro (a quem eu deveria mandar flores), fomos parar no "El Boliche Viejo", restaurante de beira de estrada. E que estrada!



A maravilhosa "Ruta de los 7 lagos", que como seu nome diz, atravessa uma região maravilhosa, verde, cheia de lagos côr de esmeralda, com picos nevados ao fundo. Cada curva da estrada mostra um novo visual de sonho. O ar tem cheiro de cedrinho, e é muito muito leve.

"El boliche viejo", agora sei, é um clássico! O prédio é tombado pelo patrimonio histórico, o chão de tabuas de madeira muito antigas, afundadas. Abriu suas portas em 1900 e dizem que até Butch Cassidy comeu por lá (talvez seja lenda). Sentei numa mesa do lado de fora, aproveitando os 27 graus de temperatura e o sol. O garçom, um indio bonitão e muito arrumado, me puxou pelo braço e me mostrou a grelha. Disse: "Esto es lo que tengo", apontando para um bife de chorizo e um matambrito de ternera. Escolhi o segundo que tinha uma cara ótima.

De entrada, empanadas criollas, de carne, fritas em banha. Sequinhas, suculentas, tempero maravilhoso, me lembrou minha infância, fiquei muito feliz. Também trouxeram um pão quadradinho frito, quente, ótimo. No "salad bar", me servi de uma generosa quantidade de vegetais: beterraba, batata cozida, ervilha fresca, tomate. Não sei há quanto tempo não comia um tomate tão doce, com tanto gosto de tomate. E então ele chegou: o matambre é um corte bovino muito fininho, que nunca vi no Brasil. Tem uma consistência interessante, macia, mas como se fosse um "courinho". É coberto por uma fina camada de gordura. Muito macio, muito saboroso, dourado pelas brasas de lenha. Este matambre era de ternera (vitela). Dois molhos para acompanhar: chiminchurri e salsa criolla. Esta última é uma espécie de vinagrete, só que mais temperado e com menos cebola.

Nunca vou esquecer esse almoço, a paisagem, o dia lindo, o parrillero Alberto, muito simpatico. Fomos às lágrimas, de verdade. E ainda teve um vinho da vinícola Alfredo Roca, da uva Malbec, que caiu redondíssimo. E de sobremesa, budin de pan, ou pudim de pão. Muito suave, com caramelo por cima, e chá "cachamay", que é uma mistura de ervas digestivas muito útil. Depois de tanta alegria, pé na estrada. E que estrada!



Aproveitando o 4x4, fiz o caminho "longo". Demorei 4 horas entre o aeroporto de Bariloche e San Martin de los Andes. Mas é um passeio imperdível, recomendo a todas as pessoas que queiram ver um lugar preservado, com ar e água limpos, ocupação controlada, casas de madeira e pedra, árvores centenárias, e... comida incrível!

Chegando na minha cabana em San Martin, (cidade pequena, charmosa e limpa à beira do Lago Lacar), mais uma surpresa agradável: posso comer cerejas diretamente do pé... é só abrir a janela.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Desde Buenos Aires I


Hola, que tal?


Este teclado nao tem "til"!

Mas esta cidade está cheia de brasileiros! Buenos Aires ferve de turistas e está deslumbrante de tao bonita. Em breve incluo as fotos que venho fazendo.


Depois de um pao de batata ruim em Guarulhos e um vôo lento e abafado (sequer toquei no café da manha que serviram), desembarquei na minha cidade natal na hora do almoço, algo que planejei maquiavelicamente. Meu pai me levou diretamente pro tradicional "El establo", um restaurante/churrascaria no centro. Eu disse que nao queria pegar pesado, afinal, com 3 semanas de orgia gastronômica patagônica pela frente, seria melhor começar aos poucos.



El Establo

Com um sorriso muito suspeito no rosto, meu troglodita progenitor chamou o garçom e pediu: (eramos 4)


2 chorizos (linguiça, gostei mas achei meio gordurenta)
1 morcilla (chouriço, maravilhoso do tipo vasco, com especiarias e uva passa)
1 provoleta (fatia de 1 cm de provolone, temperada com orégano e grelhada no carvao)
1 ensalada mixta (alface, tomate e cebola)
1 ensalada de remolacha y huevo (beterraba cozida e ovo cozido)
2 entrañas (corte bovino que lembra a fraldinha)



Estava tudo muito gostoso! Inclusive o chimichurri local, mais apimentado e ralo, me encantou especialmente. Nao tomamos vinho, só água mineral. A sobremesa foi a minha preferida de hoje e sempre: panqueca de maça queimada ao rum. Flambada na hora por um garçom nada exibido. Manjar dos deuses.


Atendimento bom, comida ótima, ambiente agradável, conversa animada, as minhas saudades começaram a ser torturadas. Depois da orgia, que meu pai considerou um almoço light, fui descansar um pouquinho, e acordei 14 horas depois, na mesma posiçao. Antes de cair em coma digestivo, vi na televisao uma conhecida de infância transformada em chef revelaçao, apresentando um programa de tv sobre comida muito bom, bem feito, à moda dos programas ingleses como o da Nigella. Fiquei feliz por ela, Narda Lepes.


Também vi que na TV a cabo argentina existe um "canal Gourmet", bem interessante, gente cozinhando na telinha 24 horas por dia.


Café Tortoni

Mas como a vida nao se trata de ver TV, ao acordar no dia seguinte, segui diretamente para o Café Tortoni. O café mais antigo de Buenos Aires (fundado em 1858), que apesar de point extremamente turístico, é um templo de lembranças de uma arquitetura deslumbrante. O lugar é simplesmente lindo! Sem falar na comida... Os garçons tem uns 95 anos de idade, em média. Morta de fome, tomei um café com leite, com tostado Tortoni (em pao de miga, com tomate), media-lunas e suco de pomelo (grapefruit). Abri o Clarin, li o jornal inteiro, me senti portenha novamente.



O Tortoni é também o local onde acontecem shows de tango da linha bem tradicional, com intérpretes mega dramáticos com estética for export. O Gardel cantou por lá, numa balada/homenagem ao Pirandello. Nas paredes tem fotos de Borges tomando agua mineral, Anibal Troilo (bandoneonista da orquestra de Piazzola) mandando bala no vinho tinto, Susan Sarandon comendo uma empanada e Hilary Clinton tomando champagne. O salao onde acontecem os shows de tango é a coisa mais linda, inteiramente revestido em madeira, totalmente escuro, com um piano de cauda no palco ínfimo. Me imaginei cantando lá com o GatoNegro, meu trio de tango. Quem sabe um dia?


Bueno, agora vou sair, tenho que ir até a Confiteria Florida Garden, onde minha avó chique me levava para tomar Ginger Ale na década de 80. Vou retirar a torta de mousse de chocolate (a melhor do mundo) que encomendei para a noite de natal.



Después te explico.



MK

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Estado de pré-férias

lanchinho da tarde: azeitona chilena, queijo de cabra bouchon com pimenta rosa e azeite, queijo prima donna, cerejas e vinho tinto.


Não consigo mais fazer supermercado, nem tomar café da manhã em casa. Todas as refeições viraram um evento, algo que acontece em meio a uma correria que tem muito de inventada. Essa coisa desenfreada responde a um estado interno da gente e a uma sensação coletiva de algo que se precipita, o fim do ano.

Viajo em três dias, e todos os almoços e jantares tem sido festivos. Ontem conheci o Jabuti, um restaurante de petiscos do mar, perto do Instituto Biológico. Adorei a idéia, um lugar diferente, um bairro diferente, um cardápio temático. Lugar simpático, garçom ótimo, bolinho de bacalhau excelente, casquinha de siri mais ou menos, polvo a vinagrete gostoso, adocicado e picante, nenhum vegetal no cardápio (isso me deu muita aflição, porque a salada é um catalizador da culpa, e eu gosto muito, preciso).

Hoje tomei café da manhã no Almanara. Esfiha de verdura com pinole (a estrela da refeição), salada fatuche e abobrinha recheada. De sobremesa teve Malabie, manjar árabe que estava bem gostoso, suave. Lembrei da minha avó libanesa e de como ela era má, mas fazia um ótimo babaganuche. O Almanara é um restaurante onde não tem erro. Não é nada emocionante, mas é tão padronizado que mantém um bom nível de qualidade, sempre. A formalidade do ambiente e o atendimento com palm-tops antenados confirmam.

E no jantar de hoje, penne sabores ragu e pesto. Ambos feitos pelo César, de quem já tinha provado o risotto de cogumelos. Molho generoso, penne ao dente. Comi demais. E ainda tive a coragem de pedir mais meia colher, pra provar o pesto. Ai percebi que gosto mais de pesto do que de ragu, (se arrependimento emagrecesse...). Ou talvez fosse o dia. Perguntei pro chef : "no ragú vai linguiça, não?". Ele respondeu: "no meu, só pancetta e carne". Dado bem interessante. Estava ótimo, e os comensais, amigos músicos, agregados, turma querida, estavam comendo com muita vontade e bebendo caipirinhas de caju.

No restante desta agonizante semana, ainda vou ter que passar por um restaurante português (amanhã, para comemorar uma futura ida a Lisboa), um jantar em local a definir na sexta e sábado o embarque para Buenos Aires, com direito a café da manhã by Aerolíneas Argentinas.

E depois?

Especial Miss Kitchen Argentina, revelando segredos da gastronomia portenha e descobrindo os pratos patagônicos. Haja trekking.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Prazeres Proibidos

Apesar do que o meu discurso possa aparentar, eu sinto culpa. Quase sempre acho que comi demais, pedi coisas variadas demais, comi rápido demais... às vezes acho que gastei demais (se a comida não foi boa).

Mas nada se compara à culpa que sinto ao me permitir comer certas coisas. Ontem, por exemplo, fui no Sachinha (restaurante de grelhados), disposta a comer um peixe com salada, e beber bastante água. Acabei comendo linguiça calabresa com polenta frita e cerveja... (teve salada na entrada e água na saída, pra não dizer que fui totalmente troglodita). Meus acompanhantes (um diretor de teatro inglês, uma atriz/fazendeira, uma baterista faminta e um cachorro que não se sentia bem), me viram seguir sem esforço pelo mau caminho. Este era o acaminho deles, exceto do cachorro, que não se sentia muito bem.

Eu não tenho gosto especial pela junk food, por sorte meu gosto tem um quê natureba e amo legumes, meu fígado fraco me protege. Vou ao Mc Donalds só uma vez ao ano (religiosamente). Aliás, em 2007 ainda não fui, e duvido que resolva isso esta semana.

Uma certa manhã (bem, era quase meio-dia), sai de casa sem ter tomado café, atrasada para um ensaio, e resolvi parar numa padaria na Heitor Penteado. Uma daquelas padarias bem populares, que não tem expresso, que são meio sujas, cheias de homens, alguns deles tomando cachaça desde cedo. Eu entrei pensando "vou pedir um suco de laranja com mamão, e vai ser isso". É que há algum tempo estou tentando sem sucesso eliminar o pão da minha dieta. Principalmente pão branco, especialmente pão na chapa, daqueles cheios de manteiga.

Nunca gostei muito de mamão.

Ao entrar me deparo com estas imagens:



Coxinha, mini coxinha, risole, bolinho de bacalhau e pão de queijo vulcânico (repararam no furo? esse furo implora por requeijão, catupiry ou qualquer coisa branca e mole).

E ainda:



Pastel, salsicha, folhado de presunto e queijo.

Realmente, uma visão do apocalipse hepático.
Salivei, suei frio, meu estômago parecia um trovão de fome, mas resisti:
Pedi um pingado e um pão na chapa.


MK

sábado, 15 de dezembro de 2007

como?

como sempre
beber água
como eu
tomar água
como remédio
hora em hora
como deveria
só água
comida não
como agora
outras horas
como tudo

Vidinha mais ou menos...

La Casserole


Ontem, sexta-feira de trânsito e garoa fina, resolvi ir à Sala São Paulo, para ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven, uma peça que é uma espécie de Britney Spears da música erudita, bem pop. A famosa lanchonete de lá também me interessava. E mais uma coisa que preciso confessar, nunca fui à Sala São Paulo! Isso sempre me fez sentir meio ignorante, inferior, plebéia, passo vergonha na frente dos meus arranjadores. Só que, chegando lá, não tinha mais ingressos, tudo esgotado. Pensei: de repente saio da minha mania de só pensar em comer e vou assistir uma peça qualquer, assim, sem saber do que se trata, posso me surpreender...

Acabei no tradicional "La Casserole", no Largo do Arouche. Afinal, é uma outra instituição da cidade que eu não conhecia, tão importante quanto. Logo na entrada reconheci o Maître, era o Júnior, ex-marido de uma amiga que eu não via há 10 anos. Era ou não era? Era! Só que ele se transformou no Chef Aldo Alves, as pessoas mudam! Achei ótimo. Ele foi super atencioso assim como todos os garçons. Como estava cheio, fui conduzida até a última mesa, lá no fundo. Técnicamente a pior mesa, mas eu não achei! Dela eu tinha visão privilegiada da porta da cozinha, de onde saia um desfile de belezas que colocava qualquer fashion week no chinelo.

Vi passarem escargots, pernas de carneiro, camarões, fois-gras, saladas, risotto de cogumelos, sorvetes, mousse de chocolate. Uma visão dos Deuses.

O couvert foi muito refrescante, com bastões de pepino, salsão, cenoura e cebolinha. Também um pão francês bem fresco e uma manteiga muito gostosa, salgadinha. Tentei comer pouco. Não consegui. Pedi uma taça de Chardonnay Terrazas (Arg), para acabar de derrubar meu preconceito com vinho branco, e como prato principal lulas grelhadas ao azeite de alho com mini legumes assados. Não tenho palavras para descrever o perfume e a sensualidade do prato (bom, isso já são palavras para descrever). As lulas estavam quadriculadamente grelhadas e tinham uma consistência levemente borrachudinha (deviam ser congeladas, tão longe do mar estamos), mas nem isso ofuscou o sabor delas. Tinha umas lasquinhas de alho assado e era um prato molhado, cheiroso e bonito. Bem mais bonito que a foto, feita com celular. Fiquei muito feliz.



Como se isso fosse pouco, a sobremesa. Creme de marrons (castanhas) com mousse de chocolate e chantilly. Leve, nada enjoativo, na medida. Com chá de hortelã fresca no capricho.

Fora isso, a decoração é muito bonita, sem ser excessiva. Ambiente agradável, boa iluminacão, familias jantando, nada daquele clima descolado dos restaurantes da moda, ninguém interessado em se exibir, só em deglutir. Não é por acaso que o restaurante está no mesmo endereço há 50 anos. As histórias sobre seus criadores são interessantíssimas. Um casal e tanto, Roger Henry e Fortunée. Tem foto dela no cardápio, de lenço na cabeça, servindo um charmosérrimo Omar Shariff. Hoje o restaurante está nas mãos da filha deles, Marie-France, que pelo jeito cuida muito bem.

Sai de lá entusiasmada e feliz, grata por ter condições de me permitir esses prazeres. Valeu cada centavo. Ainda bem que não gasto com roupa, carros e essas coisas. A boa mesa me inspira muito mais. Como disse no meu primeiro post, é por essas e outras que não tenho poupança.