terça-feira, 7 de abril de 2009

Ritual acolhedor.

O exército de Dionísio.



Poucos dias antes do tão esperado dia, já comentavamos: é tão bom quando um músico além de ser músico faz outras coisas, tem outras vocações, outros focos de interesse, outros assuntos. Se não fica aquela coisa de falar de equipamentos, da "gig", das sempre engraçadas anedotas de bastidores. Nada contra esses assuntos todos, que inclusive são parte integrante do meu musical dia-a-dia, mas é refrescante quebrar o mito de que músico não lê nem alonga (eu inventei esse mito), nem fala de outra coisa que não seja música.

E foi um amigo músico que fez o convite: uma degustação de vinhos e massas, informal, com gente legal que se conhece ou não, em clima de conversa descontraida. Então eu pensei "mas que vinhos são esses?". Vinhos argentinos? Ah, bom (olha o bairrismo). Degustação promovida pelas Bodegas Nieto Senetiner e conduzida pelo Sérgio, meu amigo.

Tudo começou com um espumante muito gostoso, tomado no pátio interno, sentados em móveis rústicos de madeira. A sommelier da casa perto da gente, nos dando dados importantes sem aquele ar de conhecimento exclusivo. La champagna era bem seca e estava bem gelada. Me lembrou os cavas espanhóis. O Sérgio foi nos dando detalhes sobre a bebida e explicando essa idéia de divulgar uma marca no boca-a-boca, coisa que eu achei muito legal, porque cria a oportunidade de pessoas sem conhecimento técnico poderem apreciar os vinhos, descifrar suas características e reconhecer suas qualidades. E o mais importante: poder refinar nossos critérios, adquirir referências e derrubar inverdades sobre o tema. O espumante foi acompanhado de brusquetas de alho poró com queijo e tomate, quentinhas, trazidas por rapazes simpaticos vestidos de preto.

Então passamos para o salão de jantar geladinho, no CD player um tango instrumental, na mesa milhões de taças de cristal numeradas. As garrafas enfileiradas num canto da sala eram como um batalhão dionisíaco e eu me perguntava quais iam ser abatidas para nosso deleite.

Começamos com um vinho branco que me surpeendeu muito! Inclusive foi o que mais gostei na noite. Acho que eu estava com "boca" de vinho branco nesse dia. Era um vinho da linha Don Nicanor, delcioso! Tinha sabor de terraço com vista pro mar, brisa leve e porção de lula. Para acompanhar, desgustação simultânea de massas italianas Delverde, começando com o penne ao molho branco de queijos (quentinho, gostoso, com toque de noz moscada). Então descobri que é uma massa grano duro produzida dentro de um parque nacional e cuja secagem é feita ao sol em bandejas de cobre, pelo método tradicional (e não secagem à força como outras marcas por ai). Entre outras características, a homogeneidade do cozimento é notável. Eu só sei que era uma massa gostosa.



Massa artesanal e vinho branco espetacular.



Então vieram algumas variedades de Malbec (de diferentes anos e faixas de preço), todos muito bons. Surpreendentemente houve um consenso no grupo: o malbec que mais agradou foi o mais baratinho. Ótima noticia! Agora não lembro exatamente, mas acho teve também um syrah, de cor linda. Foi ótimo poder comparar a cor dos vinhos, alguns sangue, outros ferrugem, outros amora. Uma experiência sensorial. Então chegou uma massinha toda diferente, tipo a releitura de um parafuso, com molho fresco de tomates.



Parafuso revisitado.



E o ponto alto da noite foi o Bonarda Edição Limitada (a última garrafa oferecida). Como disse eu estava um pouco sem paladar pros tintos (apesar de ter provado todos), mas quando chegou esse rapaz de etiqueta dourada, me rendi. Descia como água. Melhor do que água. Descia redondo e acho que foi a única garrafa que bebemos até o fim.



Algumas garrafas mais tarde...



E assim fomos embora, entre risadas, conversas e combinação de futuros encontros. A platéia heterogênea já tinha ficado entrosada, graças ao vinho e seu ritual acolhedor. Adorei! Fiquei fã dos vinhos e aprendi um monte. Será que me convidam de novo?

sexta-feira, 6 de março de 2009

Os pecados do mundo.

Nada melhor para encerrar o carnaval do que um cordeiro, que tire os pecados do mundo. No meu caso, o pecado de ver TV a cabo demais, tomar vinho no almoço e não pular em nenhuma avenida.

Mentira. O meu cordeiro não teve nada a ver com o carnaval. Fazia tempo que eu queria preparar algo pros amigos. Na verdade, queria oferecer o meu clássico (nossa, como soa arrogante isso!): as costeletas assadas com molho de ervas. Mas o meu forno não está funcionando -nunca funcionou- (o fogão, apesar de seu charme vintage, está um desastre, assim como a geladeira), então parti para um cozido. Não queria me arriscar, então busquei informação e inspiração em alguns livros e sites, onde vi as mil e uma possibilidades cordeirísticas: cozidos espanhois, ensopados italianos, "stews" irlandeses... No fim, resolvi fazer o que sempre faço: seguir minha intuição.

"Cordeiro lentamente cozido em seu caldo ao vinho branco, com legumes e cous-cous"

ou simplesmente

"Cordeiro de Deus!"

Adoro o glamour de batizar os pratos (fictício, como todo glamour, mas no meu caso, cozinheira desconhecida, mais fictício ainda).

Às compras
Fui no Santa Luzia, aquele lugar onde eu gostaria de montar uma barraquinha iglú e morar para sempre. Eu não iria incomodar ninguém, iria ficar quietinha perto das comidinhas, admirando a paisagem. Quem gosta de cozinhar e de comida realmente encontra no Santa tudo e mais um pouco. Comprei uma paleta de cordeiro premium de 1.600 kg e um pernil de 1,500 kg. Peças bonitas e frescas. E comprei todos os outros itens, além de um Bordeaux e um Malbec argentino (Terrazas). E sabe o que? Apesar da fama de supermercado de perua (bastante fundamentada, na verdade), o Santa é mais barato do que o Pão de Açúcar, por exemplo. Bem mais! Se você não acredita em mim, vá até a seção de queijos e dê uma olhada. O que acontece é que o Santa vende ítens que são caros, e que seriam caros em qualquer lugar, como tâmaras iranianas selecionadas, por exemplo. Mas as coisas "normais" são mais baratas e infinitamente melhores.

Bom, passado o meu surto de merchandising não remunerado, vamos ao cordeiro.
Comecei com uma marinada que levou: azeite extra-virgem, vinho branco, pimenta preta moida, suco de limão siciliano, o limão siciliano depois de espremido e alguns galhos de alecrim. O cordeiro, cortado em cubos, passou 12 horas neste caldo.


Marinada.


Com os ossos remanescentes fiz um caldo mega concentrado! Coloquei numa panela os ossos, salsão, cebola, cenoura, louro, vinho branco e sal. Cozinhei e deixei reduzir por 2 horas. Depois coloquei na geladeira e retirei a gordura excedente, que se acumulou sobre o líquido.



O caldo da cultura. Antes.



Depois.



Isto feito, selei os cubos de cordeiro (retirados da marinada, sem líquido e agora com sal) numa panela de fundo grosso, que é ótima e não é minha. Bem aos poucos, para que a carne não soltasse líquido demais e ficasse cozida. O cheiro disso já foi de enlouquecer! Depois dilui os grossos líquidos da carne em vinho branco.


Eita cheiro bom.



Diluindo.


Enquanto isso descasquei e cozinhei de leve as batatas bolinha. Meu amigo querido que chegou mais cedo pra ajudar descascou cebolas pequenas (sem arrancar as pontas, para que elas permanecessem íntegras).



Batatinhas quando nascem.



Vamos ao cozido: numa panela bem grande (cozinhei para 10 pessoas), coloquei a carne selada, as batatinhas cozidinhas, as cebolas, champignons, o líquido da marinada, o caldo reduzido e um pouquinho de sal marinho com ervas.



Panelão.



Como acompanhamento, um cous-cous absurdamente rápido e prático, com lasquinhas de amendoa torrada e passas louras. Na verdade, sultanas. Em inglês tem "raisins" e "sultanas", e é tudo uva passa. Mas eu comprei sultanas, porque achei mais nobre.



Cous-cous real.


Duas horas e alguns vinhos, salada (rúcula, alface, agrião, tomate), queijos (1 brie, 1 prima donna, 1 roquefort, 1 boursin com pimenta demais), o jantar foi servido na mesa animada. O calor era de matar, e a comida, digna do inverno no Alaska. Mas ninguém reclamou, até porque "é isso que os beduinos chics comem no deserto" (sic).



Nossa mesa.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Vício

Estou viciada na padaria. No solitário ritualzinho matinal.
Ontem fui no mercado e comprei coisas saudáveis de café da manhã. Pão integral, iogurte, frutas, queijo branco.
Pra que? Se acordo já pensando na padaria, no cafezinho com espuminha de leite desnatado e no pão na chapa prensado sem miolo.
E hoje, quinta-feira, já vou pra lá pensando no suplemento Paladar, do Estadão. Dispenso os horrores do mundo, a crise e até o segundo caderno e vou direto às páginas sobre comida. Na capa, uma matéria sobre ceviche, que eu adoro, e que há dias penso em fazer, aproveitando o calor e seguindo a receita do meu pai (tem um post das férias sobre isso).
E depois leio o resto do jornal no sofá de casa ao som da máquina de lavar. Quinta-feira é dia de faxina e essa foi a minha desculpa para ir tomar café na padaria.
Mas algo me diz que há algo errado nessa formula de café e pão na chapa, é meio pesado, me deixa com sede... ou talvez seja só a culpa?
Em todo caso, vou tentar mudar. Vamos ver.
A Leticia ali na esquina não ajuda.


Pessoas que encontrei na padaria de manhã: Pepe (pianista), Diogo (cantor), Xaxá (atriz), Pedro (professor de yoga, mas ele não me conhece). A padoca da Natingui é quase um local de trabalho.


PS: Ontem comentei que os textos dos blogs precisam de foto para não serem chatos, e reparei que meus ultimos posts não tem foto. Deve ser por isso que também não tem comentários... Vou dar um jeito nisso, apartir do próximo post.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

L'apero, bistrozinho informal na Vila

Eu lembro quando eles abriram, num point "zicado" da Vila Madalena. Nesse point uma época funcionava um bar gay. Uma noite eu precisava muito de água mineral e entrei para comprar, mas não me deixaram entrar. O segurança me explicou: hoje tem festa de urso e mulher não entra. Fiquei perplexa! O que é festa de urso? O segurança me deixou espiar e então entendi. Eram moços, todos de barba, calça social, camisa social dentro da calça, sapatos de couro e suspensórios. Todos bastante elegantes, dançando juntinho um hit passadista do Barry White. Todos gordinhos. Foi surpreendente! Nem sabia que isso existia!

Mas o bar gay não durou e tempos depois abriu o L'apero. Lembro que estava sempre vazio e que esse vazio espantava os clientes. A primeira vez que entrei foi porque, da rua, ouvi tocar meu disco preferido do Paris Combo. Conversei com o dono rapidamente, que me indicou um outro artista, Mathieu Chedid, (foi o dono que indicou ou alguem que estava com ele, não lembro) e descobri sua versão em francês de "Close to you" do The Cure (muito legal!). Naquele dia só tinha eu no restaurante, e pedi uma terrine com cebola caramelizada e uma taça de vinho. Não lembro o que achei.

E não é que agora é um sucesso? Está sempre cheio. O segredo é oferecer uma comida boa, com o dado sofisticado de ser francesa, mas sem muita frescura e a preços muito razoáveis. Você pede uma das saladas, que são gigantescas e que podem incluir elementos de reforço como presunto crú, brie, ovo, atum marinado, etc; pagar vinte e poucos reais e ainda dividir com a sua companhia (isto não se aplica a dois homens famintos). Também pode tomar um vinho argentino das adegas Uxmal, na temperatura certa, numa taça bonitinha e pagar menos de 40 reais a garrafa.

Eu gosto dessa proposta honesta e realista de preços, que se ajusta perfeitamente à realidade dos profissionais liberais da zona oeste que lotam o salão. E gosto que a cozinha seja farta e simples. Nunca pedi nada diferente das saladas e terrines, mas já vi passar ao meu lado um bifão com batata frita e um prato parecido com o grego mussaka. Não sei do que se tratava mas o cheiro e a aparência estavam ótimos.

Me da muita raiva quando vou num lugar que se diz bom e sofisticado, cobra caro e serve pratos insossos, mentirosos, pura embromação, pura apresentação. Por isso gosto e recomendo o L'apero. Comprovem.

http://www.lapero.com.br/


MK, fevereiro de 2009.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Férias das férias

Paraty-Mirim



Conclui que as férias também dão trabalho!
Tem que abastecer, dirigir, se instalar num novo lugar.
Tem que manter esse novo lugar limpo.
Tem que passar um monte de protetor, ir à praia, passear de barco, andar na trilha.
Tirar a areia do pé, fazer compras, tirar dinheiro.
Passar calor, lidar com a chuva.
Jogar baralho, dominó, taco, frescobol.
Ler, ler, ler.
Ficar na rede.
Ficar na areia, fugir do sol, nadar.
Passar off, coçar as picadas.
E também:


Calle Junin, Buenos Aires.


Tem que ir pro aeroporto, pegar fila, fazer check-in.
Comer comida de avião, aguentar atrasos e turbulências.
Passar calor.
Pagar caro.
Andar de táxi.
Andar.
Passear.
Visitar velhos amigos.
Almoçar, jantar, comer.
Comer, comer, comer.
Ver a família, se emocionar.
Entender a si próprio.

E tem que voltar, pelo caminho inverso.

Mas vou falar de comida. Vamos aos destaques.

Paraty-mirim é uma vilinha de pescadores perto de Paraty.
A praia é rústica, não tem comércio, a região é linda.
Ilhas, mato, mar verdinho muito calmo e transparente.
Gostei muito de um PF que comi na praia da Trindade antes do natal (depois ficou impossível). O peixe frito, sequinho, em postas grandes era uma coisa dos Deuses.
Sabe quando tem salsinha e alho no ovo em que o peixe é mergulhado antes de passar na farinha e fritar?

Não gostei nada de um PF que comi na praia (linda porém cheia de campings farofeiros) de Cambury - Ubatuba (não confundir com Camburi, mais ao sul no município de São Sebastião). Batatas num tom marrom escuro, molhadas de óleo, caras e mal servidas. Peixe magro e espinhoso. Arroz requentado com muita água, feijão sem gosto.

Amei o PF do Orlando, pastor evangélico muito carismático na praia/ilha do Cruzeiro. Especialmente a lula àdorei. E o que era aquela praia? Muito boas também as porções do Wilson no canto esquerdo da praia da vila, boas e pequenininhas.

Além disso teve um ceviche de aniversário muito bom, feito com badejo fresquíssimo e servido com alface, cebola, grãos de milho cozidos e batata doce. E no reveilllon uma mesa serve-serve de temaki com salmão, bardana, omeletinho japonês, manga, abacate e essas coisas boas da vida. Fogos de artificio belos e assustadores (principalmente aqueles que vinham da usina nuclear de Angra...), sub-graves ecoando na bahia calma, champagne gelado, vista pro mar, gente querida. DJ indeciso, sono e um bote com vazamento para voltar pra casa. Toda uma aventura.

A alimentação foi basicamente peixe, peixe, peixe, achei que fossem nascer escamas em mim. Peixe intercalado de algumas outras delicias (quiche de queijos, arroz com frango, macarrão, muita salada, churrasquinhos) e oportuníssimas linguiças com pão e um surpreendente vinagrete, vorazmente ingeridas depois de um dia intenso de praia. Não posso esquecer d'O Bolo de Chocolate dos Meus Sonhos. Como bebida, muito chardonnay, coca-cola, água de coco e alguns tintos frescos.

...

Em seguida, num outro planeta, as delicias de Buenos Aires.
Sempre que vou me encanto com a comida e como demais.
No quarto dia não posso mais ver carne e mesmo assim, continuo.
Mas a vida por lá está muito cara.
Os itens historicamente caros como cafezinho ou suco de laranja estão agora extrapolados.
Eu portenha, sofri como um turista as contradições da cidade:
Asado de tira, salada, batata frita: 15 pesos.
Café com leite, 2 medialunas: 15 pesos.
Alguém pode me explicar como é possível?

Apesar dos preços, delícias.
Adoro o café de lá, que deve ser brasileiro, mas é servido um pouco mais fraco.
Adoro o leite e o iogurte. Amo um leite chocolatado da minha infância da marca "Cindor".
A queda da promessa foi vê-lo em embalagem tetra-pack e com a marca Nestlè. Mas o sabor é quase igual. Fui ao mítico café Tortoni mas não tinham mais churros. Outra decepção.
O sanduiche de lomito do "La Rambla" continua imbatível. Lomito é a melhor carne do planeta. Imagina um filé mignon, só que mais macio, mais gostoso e com aquela casca pretinha das brasas. Empanadas saborosas de humita (milho) na casa da vovó, mas compradas numa ótima rotisería. Matambrito tiernizado (espécie de fraldinha, muito macia e com uma fina camada de gordura torradinha). As espetaculares beringelas de minha cunhada turca. Medias lunas, tostados, pomelo, pastel de papas. Tudo muito bom.
Comer em Buenos Aires é uma delicia que engorda.

E agora, de volta à padaria Letícia, ao sacolão e aos bares/restaurantes da Vila Madalena. Batizei a chegada com o arrumadinho do Canto Madalena, e de quebra encontrei por acaso amigos queridos de quem tinha saudade.

É bom ir, é bom voltar, é bom ir de novo.

MK, janeiro de 2009

sábado, 13 de dezembro de 2008

Abobrinhas, sim!

Eu sei que elas são bonitas e gostosas.



Há tempos atrás li um livro da Nina Horta chamado "Não é sopa". O livro tem textos que contam causos, histórias pessoais e também receitas, estas muito boas. Lembro que o que mais gostei no livro foram as receitas de comida brasileira, como feijoada ou galinhada, essas coisas. Mas uma coisa me incomodou, o capítulo onde ela falava que detestava abobrinhas, que as achava um vegetal sem graça e outras calúnias.

E não é que ontem, em sua coluna na Folha de São Paulo ela retoma o ataque a estas minhas queridas? Bom, um ataque sutil, e feito no meio de um texto muito engraçado que questionava os cardápios rebuscados de teor eco-chato (que eu também não suporto). Mas voltei a ficar incomodada. É que as abobrinhas já me deram tanta felicidade! Senti que não podia aceitar essa injustiça de braços cruzados.

Isso tudo me lembrou um programa que assisti, do cozinheiro pop inglês Jamie Oliver em que ele disse detestar alface americana e brincou de ficar atirando nelas com uma escopeta e arrebentando as coitadas no ar. Ele achando o máximo e o cara rústico que cuida da horta do programa um tanto sério. Eu achei meio absurdo, primeiro pelo desperdício, ficar estragando comida assim na brincadeira e depois porque de todas as alfaces, a americana é minha preferida. Adoro a crocância dela, acho que ela refresca qualquer sanduíche, e gosto muito mesmo do seu sabor sutil.

Matei a charada! "Eles" não apreciam a qualidade "aguada" dos dois alimentos. Claro, gosto não se discute. Todo mundo não precisa ser fã de abobrinhas ou alfaces americanas, mas por que usar um meio de comunicação poderoso para denegrir sua imagem? Eu por exemplo não gosto de... Bom, não lembro de nenhum vegetal que eu não goste agora. Mas não sou fã de mexilhão, por exemplo, e nem por isso fico dizendo que eles são um marisco desprezível nem brinco de assassiná-los em público. Tudo bem, se eu dissesse isso seria pros amigos ou neste blog, que pouca gente lê, mas mesmo assim não o faria pelo simples motivo de que posso ver a qualidade mesmo em algo que eu não consumo. E não é que eu detesto também, uma vez comi com molho de vinho branco no restaurante Manacá e foi ótimo (duas ou três unidades, no máximo).

Voltando às abobrinhas. Há dez anos fiquei amiga de um menino italiano chamado Doménico que era bonito e baixinho e fazia circo, que encanou que queria cozinhar pra mim, de tanto que eu falava em comida. Ele disse "vou fazer o melhor spaguetti com zucchini de sua vida". Ele não sabia que também seria o único, mas a verdade é que ficou uma delicia. Nunca vou esquecer. Não sei como ele conseguiu, mas eram lascas de abobrinha marinadas em azeite e rapidamente cozidas no vapor da massa, com cebola e um pouquinho de pimenta calabreza. Queijo ralado na hora, mais azeite e pronto. Maravilhoso.

Também gosto dos famosos "zapallitos rellenos", tão populares na Argentina. Tem que cozinhar o "zapallito" (versão esférica da abobrinha) de leve, tirar toda a polpa e refogar com cebola, carne moida e temperos. Depois volta o recheio para dentro das cascas e assa/gratina com queijo ralado e farinha de rosca. Só de lembrar me dá água na boca. Ou então simplesmente a abobrinha cozida com azeite e sal. Ou como parte integrante do puchero. Ou como parte integrante do ratatouille. Tenho mil motivos para gostar dela.

Abobrinha, eu te amo e vou te defender sempre que puder.



MK, gripada, dezembro de 2008.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Arturito

Eu me interesso por restaurantes de donos argentinos. Não só porque sou argentina, mas também porque sei como nós somos capazes de produzir boa comida. Então resolvi ir atrás do Arturito (como o robô). Chegando lá, um mercedão-vidro-fumê, engravatados à porta, três manobristas e uma construção arrojada. Pensei "Ihh, é chicoso demais!". Nada contra a chicura, veja bem. Mas naquele dia, além do meu visual molambo-roots de aula de yoga e meu cartão de crédito não estar em sua melhor forma, eu não tinha ânimo para ambientes muito formais. Bom, morro de vergonha de ir até a porta e não entrar. Além disso, o amável hostess disse: "pode entrar para conhecer, fica a vontade", de um jeito que nos deixou a vontade mesmo, portanto, entramos. E depois que entramos, ficamos.




Salão do Arturito


Longo salão com mesas enfileiradas em ambos lados, como num típico bistrô mas com um pé direito muito alto e as paredes revestidas de madeira escura. Um lugar elegante, bem iluminado, agradável, talvez um pouco frio. Casa cheia. Sentamos. Notei que por alguma questão de acústica, o som das pessoas conversando vinha muito alto, um ambiente um pouco barulhento mesmo, mas não formal. Bem, ficamos um tempinho alí esquecidos até que chamei a garçonete e pedi um cardápio. Ela tomou um susto com a própria distração e se desculpou com o olhar.

No site do restaurante a chef Paola Carosella diz que cozinhar não é arte para ela e sim oficio e que tem mais interesse em nutrir e alimentar do que em surpreender. Eu me identifiquei com isso, mas na verdade achei o cardápio bastante sofisticado. E a porção uma coisa nouvelle cuisine só que um pouco mais generosa. Apresentação cuidadosa. De entrada, veio um pão caseiro, excelente! Fresco, cascudinho, gostoso, do preto e do branco. Manteiga com gosto daquela que se come na roça, caseirinha. Um azeitinho muito aromático com queijo ralado fininho e bolinhas de pimenta. Couvert simples e gostoso. Adorei. Fiquei de muito bom humor.

Como prato eu pedi o peixe do dia na chapa com batatas com erva doce, tomilho e limão siciliano. Muito bom! O peixe era pescada cambucú. A batata era a estrela do prato pra mim, meio confitada, crocante, delícia. Fui economizando e quando o peixe acabou ainda tinha uma batata inteira. Também veio ao lado uma espécie de maionese temperada, boa, mas eu não curto muito maionese. Meu amigo pediu um ravioli muito louco, com sálvia, limão siciliano, manteiga de aspargos, dill e laranja. Muito interessante, cheio de surpresas na boca (e a idéia dela não era surpreender). Sinceramente, acho esses molhos à base de manteiga um pouquinho enjoativos, mas provando de carona estava perfeito.

Agora abro um parênteses para falar do quanto as pessoas às vezes não tem noção do espaço que ocupam e do limite da invasão. Outro dia fui num show e uma mulher veio até onde eu estava e começou a dançar e fumar na minha frente, de costas pra mim, a 2 cm do meu nariz. Neste caso, o maître (será que é esse o nome do cargo dele?) ficou de costas pra gente, no espaço pequeno entre nossa mesa e os vizinhos, falando sobre as virtudes de um certo vinho. Mas ele estava perto demais, meio nos invadindo, a ponto do terno risca-de-giz, muito elegante, entrar em contato com nosso potinho de manteiga e deixar de ser imaculado.

Por falar em vinho, tomamos um vinho branco em taça argentino, Alamos, o mais barato das três opções. Estava ótimo e muito gelado, ótima temperatura e linda taça. Era um vinho levemente frutado, mas essencialmente seco. Senti nele aquela coisa levemente leitosa dos chardonnay, só que mais macio no paladar. Não sou grande entendedora mas apreciei muito esse vinho. Inclusive fiquei com vontade de voltar e provar aquele que o maître emanteigado recomendava, que combinaria com o ojo de bife do cardápio.

Aliás, ojo de bife que espiei porque é o que pediram as quatro pessoas sentadas à nossa esquerda. Dois casais, todos comendo a mesma coisa. Mulheres de um lado, homens do outro. Pessoas na faixa dos 35-40 anos. Homens com camisa social dentro da calça e cinto de couro combinando com o sapato náutico. Mulheres de cabelo muito liso e... cabelo muito liso. Do nosso lado direito, quatro casais, todos comendo coisas diferentes e tomando champagne e vinho tinto ao mesmo tempo. Todas as mulheres juntas numa mesa, todos os homens na outra. Conversas paralelas e claramente separadas. Pessoas na faixa dos 50-60, elegantes e discretos.

Esse foi um pouco o clima do Arturito nessa noite. Todas as ressalvas de que falei, mas o que importa, a comida, achei muito boa. O serviço, de modo geral, também. A conta, salgadinha, mas nada absurdo. Pena que fiquei muito satisfeita, porque tem uma sobremesa que vou ter que pedir um dia, e para isso vou ter que voltar: mousse ao chocolat Valrhona Guanaja com shortbreads de sal Maldon. Não parece delicioso, o que quer que seja?


MK, novembro de 2008